Durante a Semana da Consciência Negra do IFMS (16 a 20 de novembro de 2020) aconteceu o V Beleza Negra, evento que se pauta na compreensão de que o ideário de beleza é uma construção social, e que, portanto, pode e deve ser desconstruído de modo a empoderar corpos dissidentes e fora dos padrões eurocêntricos. 

Segundo o Professor Guilherme Tommaselli*, organizador do concurso e responsável pelo projeto de extensão Malungos de Zumbi e Dandara, a primeira edição do Concurso de Beleza Negra do IFMS foi durante o ano de 2016, mas as conversas sobre a necessidade de um espaço de acolhimento e empoderamento para os(as) estudantes negros, negras e indígenas se iniciaram ainda no ano de 2011.

Esta 5ª edição do evento, driblando as dificuldades apresentadas pela pandemia do coronavírus, foi realizada por meio da utilização de ferramentas e plataformas digitais. Outra novidade foi que o concurso, tradicionalmente realizado no município de Três Lagoas, envolvendo estudantes do IFMS e das escolas locais, se expandiu, recebendo candidatos de todo o estado de Mato Grosso do Sul. 

O tema escolhido para a 10º Semana da Consciência Negra do IFMS foi “Vidas negras importam – a urgência do combate à necropolítica” e o SINASEFE | MS convidou os vencedores do V Beleza Negra, Talita Bogado*, Luiz Eduardo** e o Professor Guilherme Tommaselli para uma conversa sobre desconstrução, representatividade e diversidade.

 

O concurso é de Beleza, mas é só isso? 

— O que a gente busca na verdade é uma beleza negra que represente, uma representatividade negra, independente do corpo ou da sexualidade, enfim de todos esses outros fatores, trazer a ideia de poder representar os negros quebrar os padrões de beleza e de concursos de beleza, mas manter o titulo de Beleza Negra, porque queremos dizer que esses corpos possuem beleza, a gente não avalia o corpo mas a conexão com a africanidade e os jurados são pessoas que tem relação com a comunidade negra, e todos são negros envolvidos com movimento e militância então a gente avalia isso a capacidade desses sujeitos serem porta vozes da juventude negra em Mato Grosso do Sul. Geralmente os selecionados são aqueles que têm a maior capacidade de portar esse discurso contra o racismo e de representar os jovens, esse ano a decisão foi através do público, depois dos candidatos serem analisados pelos jurados.

(Guilherme Tommaselli)

Como funciona a avaliação?

— O concurso ele tem três etapas sempre, neste ano com o modelo virtual a gente criou uma etapa do perfil de cada candidato, o que seria a etapa da passarela, em seguida uma etapa cultural que tinha o tema “Vidas Negras Importam” e a última etapa foi a etapa das perguntas dos jurados e nesse ano a decisão foi por voto popular. A etapa cultural tem que ser uma apresentação que tenha relação e conexão com a africanidade com a negritude e com a estética negra. Os jurados são instruídos a não avaliarem o corpo isoladamente, para não resumir a beleza ao tipo de corpo, já tivemos problemas com jurados de concursos anteriores e buscamos sempre melhorar e trazer pessoas que compartilhem as ideias do concurso, pra nós é de extrema importancia que os jurados sejam negros e negras, nós convidamos pessoas desde o professor a terceirizada da limpeza para participarem.

(Guilherme Tommaselli)

 

O que significou para você ganhar o Beleza Negra?

— Eu como uma bixa preta, o que eu penso, o negro sempre enfrentou varias lutas sempre sendo julgado como pobre, você pode ver isso sendo retratado em vários filmes, só que verdadeiramente os negros são reis e rainhas, imperadores e imperatrizes pra ser exato, ou seja eu estar participando do concurso já é uma honra por tantos negros que já foram mortos e inferiorizados pela escravidão. Como bixa preta é uma vitória estar num espaço que sempre foi para pessoas héteros, e não posso deixar de falar sobre como o corpo negro é tratado como fetiche sexual, pessoas negras não tem direito de se amar, não tem direito a nada. Eu chegar nesse lugar foi uma quebra de tabu, gerou grande impacto, ah mas tem pessoas que não vão gostar de você, que vão te materializar, desculpa mas só estar lá na frente dando minha cara a tapa para que as próximas gerações não precisem passar pelo que passei já me sinto gratificado.

(Luiz Eduardo)

 

— Tem uma coisa que falam né, o pacote completo, porque são várias lutas Mulher, Negra, Gorda e LGBT, então assim, ser uma dessas pessoas, ter essa representatividade é uma coisa muito bonita de se ver e eu me identifico com isso. Eu moro numa cidade muito pequena, 12/13 mil habitantes, querendo ou não todo mundo acaba conhecendo todo mundo, cresci aqui desde os 5 anos e até hoje eu saio com o cabelo preso quando saio com ele assim (solto e volumoso) tem aqueles olhares, julgamento, meu cabelo agora está roxo mas antes era verde, tem também o jeito que me visto que é um pouco diferente, as vezes eu me visto de um jeito mais “feminino” e outras só uma camiseta e uma calça e me julgavam muito por isso. Aqui na cidade também moram pessoas idosas que acabam questionando o meu jeito de ser, mas também por contas das pessoas que eu andava, também julgavam muito, Então eu achei muito legal ter ganhado porque mostrou a importância da representatividade, mostrou que não precisa ser uma beleza padrão, das meninas magras de baixa estatura com o cabelo bem definido, são as meninas das propagandas, diferentes do que eu sou, meu cabelo não é definido eu sou gorda sou alta, tenho 1,70, então fico muito feliz de representar a beleza negra que não é padrão.

(Thalita Bogado)

“Mostrou que não precisa ser uma beleza padrão, das meninas magras de baixa estatura com o cabelo bem definido, são as meninas das propagandas, diferentes do que eu sou, meu cabelo não é definido eu sou gorda sou alta, tenho 1,70, então fico muito feliz de representar a beleza negra que não é padrão.”

(Thalita Bogado)

Que mudanças marcaram a vida de vocês?

— No meu caso já não posso dizer que eu sou fora do padrão, a não ser pela sexualidade, porque o padrão é o hétero defensor da família tradicional brasileira, o que eu não sou, eu sempre vivi uma realidade bem comum no brasil, sou de família cristã e acabava praticando um preconceito comigo mesmo e também com outras pessoas que eram de outras religiões como as de matriz africana, e sempre ouvi enquanto crescia que isso não era o certo você acaba absorvendo, você não tem uma educação de qualidade, não condeno mas no meu ponto de vista é muito errado, eu trabalhei isso em mim, começou aos meus 9 anos e não pretendo parar, cada dia pra mim é um passo para a mudança, hoje eu penso que todas as pessoas são livres para fazer o que quiserem, eu não tenho mais a cabeça fechada nesse sentido, hoje eu defendo as religiões de matriz africanas e todas as outras menosprezadas. Eu cresci e fui ensinado a ser o padrãozinho mas eu deixei de viver isso, eu quero ver como é a realidade do povo negro, as crenças, hoje meu sonho é visitar cada país do continente africano.

(Luiz Eduardo)

 

— Eu também sou de família cristã, eu também tinha uma cabeça muito pequena e reproduzia os mesmos julgamentos, mesmo eu nascendo em um país que tem muitas religiões, nasci na Índia, minha mãe é paraguaia e meu pai brasileiro, nasci lá porque meu pai é jogador de futebol, comecei a notar as diferenças na escola, na época da igreja eu andava muito com o cabelo preso eu não deixava meu cabelo solto por vergonha, porque via as outras meninas com cabelo liso e queria ser igual, acabava fazendo coque, lavando e prendendo sempre, e mesmo sendo julgada eu também julgava muito as outras pessoas, hoje tenho amigos de diversas religiões já visitei achei muito interessante, não fiz a opção de seguir mas achei muito interessante a experiência.

(Thalita Bogado)

“Somos herança de povos que sofreram e agora nesse momento devemos sentir orgulho de todos aqueles que morreram de forma fria, por aqueles que deram a cara a tapa e disseram chega!”

(Luiz Eduardo)

Deixem um recado final

— Nos negros estamos bem representados pelas pessoas que estão tendo mais visibilidade, cantores, atrizes, ativistas negros, entre outros. Queria dizer que a beleza negra é linda não importa o tom da sua pele, não são as pessoas que tem que te considerar negro, você tem que se considerar negro. Ver crianças se referenciando em outros negros é lindo demais por que somos reis e rainhas e temos que nos amar, pretos no topo sempre!

(Thalita Bogado)

 

— Independente dos resultados, temos que sentir orgulho de nós mesmos, porque somos reis e rainhas, somos herança de povos que sofreram e agora nesse momento devemos sentir orgulho de todos aqueles que morreram de forma fria, por aqueles que deram a cara a tapa e disseram chega, nós não aceitaremos mais isso, queremos ser realmente livres. Aos outros candidatos sintam orgulho, vocês são belos e incríveis, balancem o afro de vocês e mandem os preconceituosos pra longe, aos candidatos passados queria agradecer pois foi através deles que o concurso chegou até mim. Independente de tudo devemos sentir orgulho de nós e como a Thalita disse, pretos no poder sempre! Preto significa glória, riqueza e grandeza.

(Luiz Eduardo)

 

“Os finalistas trazem os tons da diversidade, uma beleza LGBT e gorda, a beleza contra estereótipos racistas.”

(Guilherme Tommaselli)

 

Para assistir a final do concurso é só clicar aqui! 

 

*Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atualmente é docente de sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul. 

**Thalita Avalo Bogado de Carvalho Pereira, 16 anos, Jardim – MS (Instagram: @thalita_a.p)

***Luiz Eduardo Nunes, 17 anos, Dourados – MS (Instagram: @luizoliver_ofc)

 

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