Texto de Tiago Tristão Artero

Neste texto, serão trazidas algumas reflexões deste bate papo que será transmitido neste I Dia da Consciência Indígena do IFMS com a MC e Youtuber Anarandá e o professor Tiago Tristão Artero. O evento será transmitido no Canal do  IFMS Três Lagoas.

O contexto desta data de  22  de março  é de uma escolha feita com representantes do  IFMS e representantes de  algumas etnias indígenas do Mato Grosso do Sul. Surgiu o nome de indígenas que representam a luta pelo território e pela  cultura indígena como  o de Marçal de Souza, Xurite Lopes, Cacique Damiana  e Marcos Veron.

Xurite Lopes foi assassinada com tiros à queima roupa de calibre 12; Marcos Veron também foi cruelmente assassinado, em janeiro de 2003, na busca pelo tekohá, território ancestral de sua etnia.

A  cacique  Damiana Guarani Kaiowá (título “cacique”, antes,  somente destinado aos homens) é  símbolo de liderança feminina e  prova a necessidade da mulher indígena tomar  a frente da luta pelo território. Ela foi  indicada como a pessoa a ser homenageada nesta data que serve  de reflexão. No caso,  a  data que  é um marco  na luta da Cacique  Damiana está em fatos tristes. Indica a morte de seu  marido, dois filhos e dois netos em áreas  de conflito. Seu neto, de 04 anos, foi atropelado nas imediações de uma área de retomada de terra tradicional e teve seu  corpo dividido  em muitas  partes com o impacto, em 22 de março de 2013. No sábado dia 13 de março de 2021 esta cena se repetiu, com uma criança de 6 anos que, igualmente, teve seu corpo despedaçado em muitas partes nas imediações da área de retomada em Dourados-MS.

A palavra interculturalidade, que tem como premissa o convívio harmônico entre as culturas. Em teoria, poderia haver o enriquecimento de culturas  a partir desse convívio. Mas no processo de opressão em curso, essas trocas ocorrem de maneira marginalizada. Explico: há culturas que se colocam como superiores e pretendem exterminar outras.

No Brasil, são mais de 300 etnias que são  acusadas de atrapalhar o desenvolvimento do sistema empresarial no qual vivemos e que sofrem preconceito por terem formas de vida integradas à natureza.

Nós, não indígenas, imaginamos que a partir de 18 anos a educação está finalizada e saímos para trabalhar ou nos graduarmos (se a situação financeira permitir… uma minoria), como se restasse só isso. Constituir família e trabalhar. Na educação indígena, segundo Anarandá, isso se dá de uma outra forma.

Há ensinamentos que precedem a fase seguinte que  entrarão, da infância  para a adolescência, práticas que  indicam a passagem para a juventude, para a vida adulta, no processo de amadurecimento e na preparação para a transformação (que chamamos de morte). Essa transformação, esse encantamento,  é um processo e não há tristeza nisso. Não é algo sombrio, como nós, Karaí, concebemos e como a indústria cultural reforça.

As práticas e rituais, bem como em rituais de transição são formas de educação tradicional indígena, bastante diferente  da  educação não indígena em uma sala fechada.

A tristeza é não saber em que  tipo de solo o  corpo estará integrado quando “morrer”, se ainda haverá rios  limpos, morros, plantas e animais, os quais o parente/familiar fará parte depois que  passar por esta transformação. Diferenciou pajé e cacique. Pajé é o líder espiritual e cacique faz a ponte entre as questões políticas com a etnia a qual pertence.

Indicou o medo de ser reprimido em pesquisar ou falar sobre a própria cultura, fruto da invasão cultural nos espaços onde  estão as/os  indígenas (seja na área urbana, seja nas reservas ou em terras indígenas, ou de retomadas de território ancestral). Como as instituições educativas, jurídicas, políticas, etc, foram formadas no processo de colonização, pela sua origem e por quem as mantém, são colonizadoras e colonizantes.

A vida reclusa em apartamentos e locais não integrados à natureza podem ser a origem de problemas psicológicos que estão indicados nos manuais criados para classificar os comportamentos chamados de não típicos pelos não indígenas, por nós, karaí.

No outro extremo, há as muitas culturas indígenas que pedem licença para sentar embaixo de uma árvore e não se sentem como uma espécie superior a outras formas de vida.

O documentário “Negligência de quem?” do Le Monde  mostra esse racismo em relação à forma de viver e a retirada destas crianças e encaminhamento para serem criadas/educadas dentro de 4 paredes, confinadas.

Anarandá falou das brincadeiras de plantar, colher e preparar alimentos, fatores fundamentais quando pensamos na soberania alimentar das pessoas. No quanto, hoje, consumimos veneno e um  número de diversidade  de alimentos muito reduzido, porque a diversidade de frutas, legumes, hortaliças, grãos fica restrito ao que é oferecido no mercado.

O choro dos casais indígenas quando nasce a filha ou  filho advém do conhecimento de saber dos desafios que o bebê vai ter que enfrentar, assim como uma reflexão sobre quando nasce uma menina, já que a mulher, por conta do patriarcado, ocupa um “não lugar”, exercendo atividades de cuidados da casa e dos filhos, não remunerados.

A colheita de frutas, a vida nos rios e as esquivas aprendidas nas lutas e danças tradicionais forneciam à mulher indígena uma habilidade que permitia se defender melhor. Anarandá reforçou que até mesmo o feminicídio que ocorre nas reservas  tem como origem este confinamento num território reduzido, o preconceito, a invasão  cultural e a impossibilidade de viver  a  cultura tradicional  como gostariam. A marginalização e a vulnerabilização imposta aos  Guarani Kaiowá são algumas das causas dessa violência e, também, dos suicídios.

Na adolescência os Guarani-Kaiowá aprendem a serem muito fortes e manifestar sentimentos de  felicidade extrema ou muita tristeza em um local onde se sintam seguros. Anarandá relata uma história em  que  a mãe indígena perdeu o filho e não estava chorando e que, certamente, faria isso  sentado a beira de um curso d’água, de maneira mais isolada, embaixo das árvores e  na presença de plantas e flores, pois são energias que vão  acolher esta mãe.

As formas de cuidar da saúde (que nós não indígenas chamamos de medicina) passam por banhos de plantas, com flores e ervas, uso de raízes e derivados daquilo que a natureza preservada oferta. Um local de confinamento, reduzido, chamado de reserva indígena não permite a manifestação da  cultura, soberania alimentar, cuidados com a saúde e práticas dos rituais. O compartilhamento de alimentos e a troca de conhecimentos se dá num ambiente de fartura e riqueza, o que implica o respeito aos direitos  da Natureza e o  viver bem tradicional, coisas que cada vez mais os indígenas são privados em decorrência da privação de territórios.

Se nas culturas indígenas e nas afro-brasileiras está presente o respeito às mais velhas e velhos e à  Natureza, na vida moderna não indígena o bom é sempre aquilo que aparenta ser mais moderno e os mais velhos são algo ultrapassado e, numa visão utilitarista, não têm mais serventia e a Natureza uma simples fornecedora  de recursos para as tecnologias desenvolvidas.

Estas foram algumas reflexões deste  bate papo que  será transmitido neste I Dia da Consciência Indígena do IFMS. Toda segunda e sexta-feira, Anarandá grava sobre temas distintos relacionados à sua cultura, desde medicina indígena, grafismo, conhecimentos dos mais velhos, nhandesis  e nhanderus, pajés.

Via Pensar Educação